domingo, 18 de agosto de 2013

RECONSTRUINDO ELENA


Assisti  ao  filme  “ELENA” (2012), da diretora  Petra  Costa completamente  “no escuro”,  desarmado e sem quaisquer  expectativas. Não li nem a sinopse antes. As únicas referências  que eu  tinha  era o instigante cartaz com a bela imagem da mulher de vestido florido sob as  águas esverdeadas, os comentários dos  internautas pelas  redes  sociais de que havia uma  forte carga poética e ganhara prêmios no   Festival de  Brasília.

ELENA é  muito  mais  que um  documentário biográfico. É uma  declaração de  amor e talvez uma  demonstração pessoal de como lidar  com a dor  da  saudade. Sim, saudade, pois Petra  Costa, muito  habilmente, não nos passa apenas a ideia de uma Elena que “foi embora” e nunca  mais  retorna. Pelo contrário,  o olhar  da irmã caçula Petra em relação a sua irmã mais  velha vai  amadurecendo e traz de volta a figura desta sua quase heroica  irmã Elena que  tinha  o  sonho de tornar-se  atriz. Sonho  perseguido e alcançado como nos é mostrado através  de  fragmentos de cartas-áudio gravadas em K-7, vídeos caseiros e registros de apresentações do “Grupo Teatral  Boi  Voador” do qual Elena  fez  parte.

 Nesse ritmo, Petra  constrói o grande mosaico de uma  história de vida. Sua tarefa parece desconfortável e árdua,  porém compensadora no plano das  emoções: Reconstruir Elena para  que  sua  memória não se perca entre as tragédias da  vida pessoal e as encenadas pela jovem atriz  nos palcos do teatro. Essa coragem de expor  a  fundo suas  próprias inquietações implica em reacender uma dor, tocar  nas  feridas da alma,  confrontar-se  com os porquês de uma  ausência imposta e sem explicações  convincentes. Toda  essa pluralidade de sentimentos é narrada e  traduzida com grande sensibilidade e poesia que  emocionam e ao mesmo tempo nos arremessam para a  atmosfera da alegria-triste que é a saudade  de ter convivido com alguém muito amado  e  depois ter que seguir a vida às custas  da lembrança – essa palavra  que  a gente aprendeu na escola a classificar como substantivo abstrato  mas  que  dói de  tão concreto e pesado que  é.
 

 A relação entre as irmãs foi  tão  intensa  e simbiótica – a narradora  Petra faz  questão de conjugar o verbo  no presente como se Elena ainda  estivesse neste tempo: Elena é, Elena faz, Elena está... – que suas  personas se confundem em determinado momento da narrativa. Intencional ou não, o recurso da linguagem poética aliada a  excelente edição causa-nos  essa sensação confortante e esteticamente bela.

Revisistar os lugares que Elena viveu e percorrer os mesmos caminhos que ela andou é  outra atitude de coragem  de Petra e sua mãe Li An. Tal ação ultrapassa o mero tom documental.É  como percorrer uma  via crucis dessa paixão de/por  Elena. E o ponto alto desses lugares ora reais, ora virtuais é a representação onírica das mulheres vestidas com roupas floridas submersas no riacho e levadas ao sabor da corrente. Interpretações  à  parte, essa imagem que remete à Ofélia afogada e outras  possíveis leituras  é a arte  como um lenitivo para a dor da saudade. Assim, Petra coloca sua amada Elena no status de arte.

Apaixonantemente belo e ousadamente bem feito,  Petra  Costa  mostra  que  o documentário não é  um  gênero chato ou  preso à  formulas como  muitos ingenuamente acham. Elena é um filme  para  ser  visto e revisto.

domingo, 12 de maio de 2013

NUVEM 9 - ONDE O AMOR E A PAIXÃO NÃO CONHECEM IDADE


O tema  do amor e do  desejo na velhice  em “NUVEM 9” (Wolke 9) Alemanha/2008, de Andreas Dresen,  é tratado com extrema delicadeza pelas lentes do diretor que também assina o roteiro. O  despertar  da paixão e  de um novo amor em  uma mulher idosa depois de 30 anos  de  casamento é o ponto de partida deste  drama que nos  arremesa  junto com ela ao seu paraíso particular, a este estado de  graça que  sugere  o título do  filme. Porém há  um preço a ser pago para  entrar nele pois não se pode  desligar o sentimento dos  envolvidos nesse transito amoroso num simples apertar de botão. Vale  lembrar  que “Nuvem 9” é  anterior ao polêmico “AMOR” (2011) de Michael  Haneke que  faz a sua  versão  do amor  entre  um casal  de idosos de  forma  muito particular sem deixar  respostas para explicar  o que  é  o  próprio amor. Haneke foi considerado pessimista e doentio por  muitos, mas  eu  o considero um gênio por  não  dourar  a pílula.

 A “nuvem” de Andreas Dresen dialoga  de certa  maneira  com  o “AMOR” de  Haneke no que tange  à  discorrer  sobre  o amor na terceira idade, quando as  forças e o vigor  natural e   gradativamente se vão. Para  muitos não é nada  confortavel  (ante)ver na tela um estágio de vida  em que  todos nós passaremos, e é  nesse ponto que  também ambos os  filmes podem incomodar a platéia muito sensível ou avessa à discussão sobre a finitude da  vida.   Um filme pode parecer mais  otimista que o  outro, mas  em uma  relação a três alguém  inevitavelmente sai perdendo e é    que  a nuvem fica carregada e se transforma  em tormenta para o  casal Inge (Ursula  Werner) e  Werner (Horst Westphal), aliás  dois bons atores em atuações impecáveis.
A imagem do personagem  Werner em  ‘ver a paisagem passar pela janela  do  trem é  sempre  mais  bela  que  a paisagem da  via  expressa’  dá a sensação  de  que  além da  vida  ser muito  breve e  fugaz  as  escolhas  podem  ser  determinantes mas nunca  definitivas.  

 Assistir  ao  filme “NUVEM 9”  me fez  lembrar  do poema “Quadrilha” de Carlos  Drummond de Andrade, mas  no contexto do  filme, mesmo que esse  amor  seja triangular as  possibilidades  ficam em aberto: Werner  que  amava Inge que  amava Karl e que podem amar outrem se o tempo de  vida permitir... 
                                                       

No filme  de Andreas o Eros não se importa  com as  contingências de Cronos e nem  com os  tabus sociais. O amor  transcende sim o físico e o apelo da beleza   juvenil, pois  quando  termina  o vigor  o que  fica  é  o companheirismo, a  cumplicidade, o afeto, a humanidade  que nada mais são que a própria essência  do amor.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O IMPOSSÍVEL - NOS BASTIDORES DA CATÁSTROFE

 O gênero  filme-catástrofe  foi  muito  explorado por Hollywood  e fez  muito  sucesso de bilheteria  nos  anos  70. São  clássicos  como “Inferno  na  Torre” (1974), “Terremoto” (1974), “O  Destino  do Poseidon” (1972) dentre  tantos  que  usaram e  abusaram da  fórmula que  recriava  o  pavor através de  imagens  grandiosas da destruição   material e  humana. Houve  uma  tentativa de retomar o gênero com “TITANIC” (1997), “O DIA DEPOIS  DE  AMANHÔ  (2004) e “2012” (2009), este   acompanhado  do marketing  das falsas  profecias sobre  o fim  do  mundo. Ficou provado que  as  catástrofes naturais ou provocadas pela soberba do homem - não  importa  se  na ficção  ou se  no  outro continente em tempo  real  do  noticiário via  satélite – ainda mexem com o imaginário do público que  vai  ao cinema  buscando  entretenimento.

“O Impossível” (2012) produção espanhola e americana do  diretor  catalão Juan A. Bayona  é  uma  dessas extraordinárias  histórias que parecem tiradas  da  seção ‘Histórias  Incríveis’ da  Reader’s  Digest . É uma  história verídica que levada às  telas do cinema vai além do entretenimento e  dá a grandiosidade e dimensão do que  ela  realmente representa  para a humanidade. Não é apenas  um  filme-catástrofe   com  cenas dantescas e efeitos  especiais de encher os  olhos. Na  verdade, os  olhos  do público se  enchem inevitavelmente de outro modo ao ver as situações limite de uma  família desmembrada violenta e dramaticamente pelo   tsunami de 2004 e que luta para não  morrer em meio ao completo caos. Talvez o  grande  mérito do  filme  seja  o foco do diretor em não  perder-se numa narrativa que se sujeitasse aos apelos  das   cenas de  devastação deixados  pelo desastre   natural  que marcou  o mundo num dia  de natal  de  2004, mas  inteligentemente ele privilegia os   bastidores do dia seguinte daquela  catástrofe  bíblica   mostrando a impotência de uma família e das centenas de  pessoas diante de um acontecimento de tal  magnitude.  Outro mérito do filme é que não se trata de uma ‘tragédia americana’, mas de um evento universal se observado como  um microcosmo onde haviam pessoas de várias partes do mundo. A  história  da  família  do casal Henry e Maria que busca se reencontrar é  apenas  uma  das  centenas de histórias  de sobreviventes da  mesma  tragédia e que  o  mundo  não ficou  sabendo. É bom  lembrar que na adaptação  para  o cinema a família de espanhóis é representada por  uma família britânica.  Dentro desse microcosmo resultado do  cataclismo  prevalece a ideia do objetivo comum do ser humano na busca e esforço mútuo em amenizar o sofrimento e a dor do próximo. Ali  todos são  iguais sejam  europeus, americanos ou asiáticos.


A sequência da chegada do tsunami não  dura talvez  mais  que  15 minutos no filme, no entanto   é de um realismo impactante. Tomadas debaixo d’água e grandes planos abertos aleatórios só tentam  mostrar o que  foi aquele  fatídico dia. Mais  uma  vez a técnica e os efeitos especiais bem dosados a  serviço de uma  boa história  é um dos segredos  do filme.   Outro  bom  momento é a curta participação de Geraldine  Chaplin como a desconhecida  sobrevivente que trava um diálogo sobre a eternidade das  estrelas  com  uma das  crianças da  família. É também uma  das poucas pausas de respiração durante o fundo  mergulho no sofrimento e dor  vividos pelos personagens principais. Vale mencionar  as  ótimas atuações de Ewan McGregor e Naomi Watts que emocionam a plateia  mesmo sem  a ajuda dos “mil violinos” da trilha  sonora que surge para intensificar  a comoção. O elenco  por si só consegue dar o tom e a atmosfera  necessários  à  cena.

O Impossível pode ser visto como  o milagre  da  determinação e capacidade do ser  humano de  lutar  pela sua sobrevivência  mesmo em meio a dor  e  a adversidade. E a maior demonstração de humanismo  é a da personagem Mary ao seu filho mais  velho   que  o  faz  refletir no quanto vale a pena se  colocar no lugar do  outro. O Impossível é  um ótimo  filme!



quinta-feira, 12 de abril de 2012

A SEPARAÇÃO – NOTÍCIAS DO MUNDO ISLÂMICO


O cinema iraniano alcançou prestígio como um dos melhores do mundo através de cineastas como Abbas Kiarostami (Gosto de Cereja,1996), Jafar Panahi (O Balão Branco, 1994), Samira Makhmalbaf (A Maçã, 1997), Bahman Ghobadi (Ninguém Sabe dos Gatos Persas, 2009), Mohsen Makhmalbaf (Gabbeh,1996) dentre outros. É um cinema que se afirma não pelo aparato técnico ou quantitativo da produção, mas com toda certeza pelos temas de cunho humano sobre liberdade e direitos individuais trazidos à tona para reflexão. De fato, a cinematografia iraniana também sofreu todas as conseqüências negativas após a sangrenta Revolução Islâmica de 1979, que culminou com a deposição do xá Reza Pahlevi e a tomada do poder comandada pelo aiatolá Khomeini. Instaurou-se a República Islâmica do Irã, uma teocracia onde a lei suprema é regida pelo Alcorão e suas complexas interpretações. Começava a era dominada pelo fundamentalismo e fanatismo cego do Islã em que palavras como Liberdade e Direitos Civis tem um significado muito diferente daquele que imaginamos.
 

 
“A Separação” (Irã/2011) do diretor Ashgar Farhadi trata justamente sobre liberdade de ir e vir, sobre a vontade e o livre-arbítrio da personagem Namin que tenta sair do país rumo ao ocidente e quer levar a filha Termeh, mas não consegue sem a permissão do marido Nader. Este é o ponto de partida de um drama aparentemente pessoal que na verdade é um dilema que alcança a família inteira e conflita diretamente com as leis e códigos do Islã, e atinge nosso senso de liberdade e democracia num choque cultural direto e nos dá uma vaga idéia de como funciona o sistema do mundo islâmico sem as distorções da lente ocidental. É um microcosmo mostrado por quem tem conhecimento de causa e reflete o universo por vezes cruel do mundo islâmico.

 
Ashgar Fahradi não foge ao estilo genuinamente simples e ao mesmo tempo rico da estética iraniana, pois ao tirar os véus que encobrem o cenário do Irã do século XXI, mostra-nos uma realidade complexa e assustadora do país dos mulás e aiatolás, onde as coisas não se resolvem tão facilmente. Situações que parecem corriqueiras para a mentalidade ocidental, como a separação de um casal e a guarda da filha, assumem a forma de um monstro invisível com várias garras que imobilizam principalmente a mulher e a criança dentro da sociedade patriarcal e islâmica. É perceptível nas personagens como os códigos e dispositivos do Islã são cobrados recíprocamente no quotidiano dos indivíduos. Essa patrulha religiosa é tão pior quanto uso do chador e do véu pelas mulheres como símbolos da opressão e autoritarismo, e não apenas como perpetuação das tradições.

 
A narrativa é repleta de pistas que nos deixam perplexos quanto ao poder da religião sobre o interesse coletivo e individual. Namin quer deixar o país rumo ao “exterior” para não deixar sua filha “naquelas condições”, aqui estão implícitos o ocidente e a opressão. O próprio pai reconhece que a lei desenhada pela religião é arbitrária e não pondera.

O filme de Ashgar Farhadi teve uma visibilidade mundial e nos mostrou uma realidade impactante. Talvez ele venha a pagar um preço alto por isso, como tantos outros artistas, intelectuais e artistas que vivem sob o regime fechado do Irã.                                                                    
                                                                                                                                      
O desfecho desse drama não apresenta o fim que desejamos, porém, com certeza, ao término do filme deixamos a sala pensando sobre conceitos tão antagônicos entre ocidente e oriente no que se refere à vida social, econômica e política e o quanto não nos damos conta do valor da liberdade e democracia em que vivemos no Brasil.

quinta-feira, 29 de março de 2012

PINA BAUSCH - DOS PALCOS PARA AS TELAS


As duas grandes estrelas do  documentário  “Pina” (Alemanha, 2011) dispensam maiores apresentações. Pina Bausch e Wim Wenders. A coreógrafa e o cineasta. Em 2008, o diretor começou a dar forma ao que seria o primeiro filme de arte/documentário em 3 D juntamente com sua amiga pessoal Pina Bausch  que não concluiu a parceria do projeto pois  veio a falecer em 2009. Se o foco era mostrar  a trajetória de uma vida inteira dedicada à dança pela genial Philippine Bausch e sua Companhia de Dança do Tantztheater Wuppertal, com sua morte, o filme consagra-se como um belo e merecido tributo a uma  das maiores referências na  dança contemporânea.


O gênero documentário por  si só não é  unanimidade no gosto  do grande  público acostumado ao cinema de diversão. Sem ignorar este fato, “Pina” não se prende a rótulos, aliás confunde-se - no melhor sentido - com musical ou com um filme-biografia. Tem a categoria de uma obra  de arte por  excelência e não só diverte como também emociona. Com todas estas qualidades é cinema puro e simples. Wim Wenders, ousadamente,  reafirma a capacidade de renovação do cinema quando traz ao público um filme de arte na tecnologia 3 D e a harmonia entre as  linguagens do cinema e da dança.

 
A bem elaborada montagem funciona  num sincronismo tão perfeito e delicado  quanto os belos  números de dança apresentados  transmitindo os  efeitos dramáticos e narrativos desejados graças ao virtuosismo dos bailarinos-atores. A exemplo disto, os trechos de filmes com  registros da própria Pina Bausch dançando “Café Müller” ou ensaiando a coreografia da “Sagração da Primavera” ao som da música de Igor Stravinsk na abertura do filme. Cada número  parece impor a marca da mestra através da sua  técnica e  radicalismo aplicados na dança e incorporados pelos seus companheiros do Wuppertal. Na performance dos bailarinos temos a impressão que vemos a silhueta  da mesma Pina se reproduzindo em cada um deles.
O trabalho de Pina Bausch também teve ampla visibilidade quando Pedro Almodóvar incluiu trechos do espetáculo “Café Müller” no filme “Fale com Ela” (2002). Hoje, não conseguimos imaginar a trama de Almodóvar sem aquelas sequências inesquecíveis.

Quem foi Pina? É a pergunta que Wim Wenders busca responder durante os 103 min de projeção através da expressão corporal e do testemunho de cada bailarino do Wuppertal. A saudade, o amor, a dor, a paixão, a poesia, a ausência e todo sentimento vai surgindo  através da dança.

 
Assistir ao documentário “Pina” em 3 D é uma experiência semelhante  a de ver o espetáculo no  palco. Na verdade, nas  ruas, nas estações de trem, nas montanhas, ou nos  locais mais  improváveis. De fato, o palco foi trazido às telas.  Wim Wenders tentou captar a essência do pensamento de Pina de que “há situações que nos deixam absolutamente sem  palavras e tudo que  se pode fazer é  insinuar, e quando as palavras também não podem fazer mais nada além de  evocar as coisas é aí que entra a dança”.
E onde entrou a  dança, Wenders continuou com o cinema que ele sabe fazer muito bem.    Ele conseguiu mostrar o “anjo da dança” que foi Pina Bausch  traduzindo essa  idéia em imagens, palavras, movimento, música e grata emoção.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A POESIA DE THEO ANGELOPOULOS

 
“O Passo Suspenso da Cegonha” (Grécia/ França / Inglaterra, 1991) do cineasta grego Theodoros Angelopoulos é , além de um belo filme, a poesia concebida por meio de palavras e imagens. O título da obra já desperta a curiosidade  do que podemos esperar de uma história sobre buscas, reencontros e desencontros. Entendamos  aqui a busca não apenas pelo outro – um misterioso homem (Marcello Mastroianni) considerado um desaparecido  político, - mas  também a busca por si próprio dentro de um espaço físico adverso e desconhecido, na disposição íntima em obter respostas e  sentido à vida.


O tema  sobre a busca é recorrente na obra  de Theo Angelopoulos assim como a questão do espaço. Os lugares das histórias de Theo são as fronteiras, as demarcações, os limites, as pontes que  separam territórios  distintos e onde habitam ou transitam pessoas rejeitadas ou consideradas como ‘refugo humano’, ou seja, aquelas não aceitas  seja  por questões étnicas, religiosas ou políticas. Portanto, vemos a presente figura dos exilados e expatriados nos espaços fílmicos de Angelopoulos. Neste “espaço suspenso” de Angelopoulos (co)existem gregos, curdos, albaneses, islâmicos, fugitivos haitianos, crianças e mulheres; todos são  personagens na cena do filme e esta problemática  ultrapassa o caos social, a complexa topografia e geo-política, mas   converge  para  questões pessoais e de ressonância universal.

 
O jovem jornalista Alexandre (Gregory Patrikareas) personifica  este eu inconformado com a desarmonia do mundo, parece que ele  sempre  está tentando colocar ou achar a peça que falta  no quebra-cabeça da vida e que  pode ser a busca ou reencontro entre pessoas, a (in)tolerância entre os diferentes, as divergências político-ideológicas  ou até um país em conflito. Uma tarefa por  vezes inglória  e ainda que não resolvida a bom termo, deixa a reflexão sobre o assunto para nós. 
 
A suposta mulher do exilado (Jeanne Morreau) é apenas  uma  das pistas do mistério que  Alexandre tenta  desvendar. Um ponto de contato mesmo que  obscuro, mas que vai conduzindo a  trama até a  marcante cena do reencontro com o homem desconhecido. Será que ele  era realmente o ex-marido a quem ela tanto procurava ou ele  mudou  tão radical e profundamente que nem mesmo ela o reconhecia mais? Paira  essa icógnita. Angelopoulos  não dá respostas, apenas deixa-nos em passo suspenso para  uma reflexão sobre o que  pode vir após a vontade do eu, ou de uma simples tomada  de  decisão a partir do livre arbítrio.
 
Suas  longas sequências conferem  uma beleza ímpar, poética e minuciosamente trabalhadas, ora  silenciosas, ora  permeadas  de  música ou compostas de diálogos  igualmente poéticos que só prendem a atenção.A exemplo disto, a cerimônia de casamento realizada dos dois lados opostos das margens de um rio fronteiriço, sob o temor da patrulha militarizada. Por  outro lado, a poesia se expressa através de cenas cruéis e impactantes de silêncio eloqüente: o travelling  mostrando os vagões  abandonados  de trens improvisados como moradia    dos  refugiados, os rostos sofridos e apáticos  remetem ao holocausto – o que  não deixa  de  ser a visão de um povo sendo sacrificado.
 Angelopoulos demonstra  predileção por  ambientes frios e cinzentos com neve, neblina e chuva  em seus filmes, e  essa atmosfera parece igualmente  acentuar a introspecção que  ele  nos sugere. O frio pede aconchego,  contrai  o corpo e nos  voltamos para dentro em todos os sentidos. Será proposital ou coincidência? Ou um simples toque sensorial do diretor?


Angelopoulos sai bruscamente de cena, justamente num período da história mundial em que os conflitos atuais foram magistralmente tratados em seus filmes ora de modo delicado e lírico, ora de forma crua e realista. O cineasta grego fica eternizado em sua  obra como  um  poeta da imagem em movimento e da eloqüência do silêncio. 
  

                                           Theodoros Angelopoulos        * 1935  /  + 2012

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

WHAT A WONDERFUL WORLD!


Há um certo tempo atrás, seria impensável ver noticiado que um homem mantinha presa no sótão de sua casa a própria filha, a quem ele violentou  por anos seguidos e  com quem teve filhos. Do mesmo modo seria inimaginável que um rapaz aparentemente normal saísse  atirando deliberadamente contra pessoas  deixando um rastro de morte. Mais inaceitável ainda  que  pessoas de diferentes grupos étnicos  ou religiosos fossem hostilizados ou assassinados por grupos radicais xenófobos de extrema direita. O que existe em comum entre estes fatos? Boa parte destas notícias  vem da Europa, o tão civilizado velho mundo.


“Em um Mundo Melhor” (Dinamarca/Suécia, 2010) da cineasta Suzanne Bier,  o tema sobre a intolerância e a violência é tratado com uma amplitude mais abrangente pois toca no senso de justiça e ética de cada um de nós independente do mundo - seja primeiro ou terceiro - ao qual pertencemos. A nomenclatura econômica dos mundos pode ser apenas  uma mera convenção político-social, mas sob as  lentes  de Suzanne Bier o mundo é  um só e o que  pesa é o caráter e a atitude de cada ser humano na construção do mundo ideal. Para o personagem central, o médico Anton (Mikael Persbrandt), não é o antagonismo entre os mundos que determina o sucesso ou a falência do mundo, mas a postura diante do caos que humanidade enfrenta quando o assunto é a guerra, a fome, a miséria, a doença e a violência.


 
Anton desempenha um papel quase  quixotesco ao tentar mostrar um mundo melhor  para a sua família, para o garoto Christian (Willian Nielsen) e para as vítimas  das  atrocidades nos  campos  de refugiados. Ele tenta  salvar o resto do mundo e o seu próprio que  está  ruindo.  Seu personagem é o único que incursiona por todos os  espaços com a difícil missão de  dizer que o mundo  melhor depende de cada um. E nesse movimento, a câmera de Suzanne passeia por territórios distintos. Transita pela miséria humana e social crônica do continente africano nos campos de refugiados e retorna ao aparentemente organizado e desenvolvido primeiro mundo da Dinamarca.

 
É nesse contraste  entre dois  espaços cruelmente distintos que percebemos o quanto nos  igualamos  como raça humana tanto para o bem quanto para  o mal. Enquanto na  África os grupos terroristas agem com a barbárie, no primeiro mundo os garotos pesquisam na internet e fabricam seus  artefatos hightech de destruição. O  que muda é  apenas  o modus operandi  mas o terror tem o mesmo efeito devastador.Vale lembrar que o apelo por um mundo  melhor vem de um cinema dinamarquês, de um país com um dos maiores IDH do planeta.
Com um elenco infantil impecável e bem dirigido, e uma  fotografia brilhante, Suzanne Bier não pretende ser pedagógica em confrontar os  dois mundos, nem tampouco peca pelo excesso de emoção na conclusão dos  dramas pessoais. Seu filme  leva-nos sim, a fazer um exame de consciência e apenas ratifica a idéia de que  um mundo possível e melhor só depende da atitude de cada um.

“Em um Mundo Melhor” conquistou o Oscar de melhor  filme estrangeiro em 2011 e foi considerado um dos  melhores filmes  do ano pela ACCPA..